vendredi 26 octobre 2018

L’ai-je bien descendu ?

Les écritures du corps suivent les marcheurs,
L’on dessine chaque pas à la craie.

Le pied gauche au sol, j’avance et glisse sur une marche.

Je pointe seule plus loin que ma vue.

Les corps plongent et roulent sur les fruits grenadiers

Sauter loin où le fruit et son sort sont jetés.

Mon souffle pousse tous les autres et l’écart n’est qu’un faux pli 
à creuser mon ventre.

Je suis tâchée, touchée, j’arrive au puits,
à la terre et mes pieds se suivent, troublés, une marche à la fois.

La course est inégale, mon boiteux vole et le chien en fond du tableau,
Il gonfle son dos.

Goya ou son sosie, peint un cabot là, juste à côté, avec des fils colorés.

Sortant du tombeau du Christ, un tas de morts de la guerre
aux visages gris verts.

On roule comme des anges noirs et déchus, la cité en Rouge Venise,
Se place en perspective.

Personnages d’un jour, en relief d’une chute et sans fin d’une nuit préparée à nous recevoir..

Le ciel est dans son voile et la ville cadre les danseurs.
On est morcelés et l’on suit le mouvement.

LM
4/10/2010


jeudi 12 janvier 2017

Á La Maison du Portugal, Cité Universitaire 
du 11 Janvier au 26 Février l'exposition de 
Lidia Martinez sur les Archéologies d'Inez de Castro. 
Performance dimanche 22 Janvier, à 16h 
« Inez,revisited », danse et performances, 
discussion autour des pièces inesianas...
dialogue avec le public.


dimanche 4 décembre 2016




A minha mão dormente procurava-te na água.

Numa assentada, num realismo desiludido, a olho nu,

pinto a natureza morta, onde me desnudo e adenso.

Descasco a pele, desfolho os ossos, mordo os figos em ramos dobrados

que me acompanham na traição...









Pinto a manta

Ao acaso no mar, antes de assustar o mundo deito-me com os sobreviventes, fecho os olhos e pinto a manta, adormecendo. Altero a vida, assobio entre os dentes uma raiva contida. Sou um cadáver no tempo, um esqueleto tardio, de ossos roídos por animais famintos, que vou criando no anúncio do meu a
bandono. estou de crânio aberto pronta a ser esfaqueada, corro atrás da morte, fintando-a. Cruzo uma espada num luminoso momento, balbucio uma jura. Desmantelam-me como um barco
para negociar um estudo, numa aula de anatomia marítima. A minha mão dormente procurava-te na água. Numa assentada, num realismo desiludido, a olho nu, pinto a natureza morta, onde me desnudo e adenso. Descasco a pele, desfolho os ossos, mordo os figos em ramos dobrados que me acompanham na traição... LM

(sinto que me falta o perónio).

mardi 29 novembre 2016


Carta de Pedro à Inez


Vois-tu enfin de la lumière se glisser entre tes doigts ?
Qui pousse ainsi le couvercle
de ta tombe, unique ouverture,une porte en lames brisées ?
Tes encadrements secrets s’écartent comme une arche.
Je suis arrivé trop tard, j’écoute les bruits si proches…
Au sol, un lointain grouillement d’insectes te piquent la robe, la dentelle se laisse faire, tu t’en fous ! 
Je me penche sur toi, au bord de ce souffle je te rends ton image,
celle qui garde l’œil frappé de voiles blancs qui nous aveuglent. Rien de nous n’ensemence plus les veines, plus de sang ne coule à ta source.

Ô mon amie, ma peine, je te suis depuis si longtemps.

Encore endormie, immobile, tu fatigues comme une orchidée soutenue par une main privée de sa force.
Impassible Reine, enfin, tu courbes la tête.
Anges et chérubins te portent grand secours. Mes péchés pèsent sur l’or et les rubis qu’elle portait en parure de tête ne sont plus que des fruits secs brisés sous un caillou.
Que le royaume se lève pour elle,
Qu’il la suive, lui prête hommage.
Je ne suis plus que vengeance en attente de son crime, je chercherai justice partout où l’on réclame ma main et le glaive sera toujours porté vers le cœur pour le couper en deux.

Pedro o Cru, Paris 4 de Abril de 2014

Mes Robes, Exposition à Miramas


mercredi 14 septembre 2016

A menina seca

Este é o mar dos afogados em abraço envolvente 
com a ilha do desassossego. Entre as colinas, uma casa e um jardim a caírem oblíquos na paisagem arenosa. Nesta geometria prespética, os vivos seguem ao lado das suas sombras. O tempo empurra tudo e todos, alargando as janelas, recurvando o tecto e escavando sem aviso os ossos dos inocentes. Nada é fixo, tudo se responde num conjunto amigável, num arranjinho secular. 
Era nesta antiga casa de famÍlia onde se juntavam, fundindo-se, os sobreviventes. Masticavam o borreguinho dominical num sacrifício místico, uma receita a preto e branco, imutável. Rangiam os dentes e num enfado rastejante suspiravam uns ais profundos. No meio deste quadro seguia uma menina com rosto de cortiça, de olhar magoado, Cruz, amadurecia em entropias secas, fulminada. Não abria a boca e dizia não com a cabeça ao cházinho de ervas, que as tias iam bebendo. Gralhas pensava, e ouvia-lhes os estalidos esquisitos. Era a única criança naquele circulo de expectantes. A Parca fiava o fim do enredo, dobava-lhes o tempo,
parecia ter-se esquecido dela. Todos acabavam por deixar o lugar a outros desajustados, consumidos pela masticação quotidiana, pelo andar dos coxos e não só. A dança num nascimento tardio, continuava em perpétuo medo da queda. Nenhum deles se lembrava de ter faltado a uma valsa ou a um tango e teimavam em ficar de pé, até que aos poucos, desapareciam engolidos pelo lodo. Cruz pinta um dia a menos no calendário, risca tudo a preto com a caneta. No jardim vibram as glicínias com os seus cheiros doces. Esta é a hora do fim do sol. 
A menina seca fecha os olhos e apaga-se.



LM
Agosto, 2013.