mercredi 14 septembre 2016

A menina seca

Este é o mar dos afogados em abraço envolvente 
com a ilha do desassossego. Entre as colinas, uma casa e um jardim a caírem oblíquos na paisagem arenosa. Nesta geometria prespética, os vivos seguem ao lado das suas sombras. O tempo empurra tudo e todos, alargando as janelas, recurvando o tecto e escavando sem aviso os ossos dos inocentes. Nada é fixo, tudo se responde num conjunto amigável, num arranjinho secular. 
Era nesta antiga casa de famÍlia onde se juntavam, fundindo-se, os sobreviventes. Masticavam o borreguinho dominical num sacrifício místico, uma receita a preto e branco, imutável. Rangiam os dentes e num enfado rastejante suspiravam uns ais profundos. No meio deste quadro seguia uma menina com rosto de cortiça, de olhar magoado, Cruz, amadurecia em entropias secas, fulminada. Não abria a boca e dizia não com a cabeça ao cházinho de ervas, que as tias iam bebendo. Gralhas pensava, e ouvia-lhes os estalidos esquisitos. Era a única criança naquele circulo de expectantes. A Parca fiava o fim do enredo, dobava-lhes o tempo,
parecia ter-se esquecido dela. Todos acabavam por deixar o lugar a outros desajustados, consumidos pela masticação quotidiana, pelo andar dos coxos e não só. A dança num nascimento tardio, continuava em perpétuo medo da queda. Nenhum deles se lembrava de ter faltado a uma valsa ou a um tango e teimavam em ficar de pé, até que aos poucos, desapareciam engolidos pelo lodo. Cruz pinta um dia a menos no calendário, risca tudo a preto com a caneta. No jardim vibram as glicínias com os seus cheiros doces. Esta é a hora do fim do sol. 
A menina seca fecha os olhos e apaga-se.



LM
Agosto, 2013.

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